Após a consulta, voltamos ao estacionamento quando Luan disse:
— Estou com vontade de tomar soverte…
— Oba! — Breno grito, saltitando a cada passo — Você quer sorvete, Ju?
— É uma boa ideia. — concordei, tentando não sorrir.
Voltamos a enfrentar o tráfego das ruas centrais e nos confundimos à multidão naquela tarde ensolarada. Todos com quem cruzávamos cumprimentavam Luan e Breno. Teve uma hora, que quase ficou impossível andarmos, de tanto de pessoas que nos cercavam.
Chegamos a uma adorável sorveteria que mantinha o mesmo estilo de década atrás, com uma lousa com lista de sabores disponíveis escrita a giz. Atrás do balcão, uma televisão mostrava imagens de um famoso jogador de futebol. A atendente, uma adolescente com um nariz arrebitado e cabelos negros presos sobre o boné, sorriu para nós.
— Olá, Breno. Você quer o de sempre?
— Pode apostar que sim! Um duplo de chocolate com cobertura extra.
A jovem olhou para Luan. Um intenso rubor cobriu o rosto alvo, e ela gaguejou ao indagar sobre o pedido dele. Até mesmo uma adolescente notava como aquele homem era bonito e atraente.
— Quero um duplo de nata com chantilly e cereja. — ele pediu naquele irresistível timbre aveludado que provocou um sorriso no rosto da atendente.
Eu estava me decidindo entre o de baunilha ou o de creme quando uma chamada na televisão me chamou a atenção. Na tela, o repórter se situava diante dos destroços carbonizados.
— O piloto fez um pouso forçado e o avião se chocou com as árvores do bosque. Todos os passageiros sobreviveram e foram levados a vários hospitais da região. As autoridades locais estão trabalhando para identificar as vítimas e entrar em contato com os familiares dos passageiros relacionados na listagem fornecida pelo comandante. — o repórter fez uma pausa enfática — Porém, testemunhas relataram que uma mulher não identificada comprou uma passagem de última hora…
Uma onda de pânico de congelou. Estavam tentando me encontrar!
— Com licença. — murmurei, passando por Luan e Breno sem erguer o rosto.
Na calçada, desmoronei sobre o banco de madeira diante da loja e recuperei o fôlego. Meu coração batia desenfreado no peito. Vi Luan e Breno se aproximar com seus respectivos sorvetes em mãos e rezei para que não tivessem percebido meu descontrole.
— Ju, você está bem? — Breno indagou, preocupado.
— Oh, sim! — tentei sorrir, mas tudo o que consegui foi fazer uma careta.
Estavam à minha procura! Quanto tempo mais eu teria antes eu teria antes que encontrassem minha bolsa?
— Tem certeza de que está tudo bem? — ele insistiu, franzindo o cenho.
Eu quis gritar que não, que estava tudo péssimo, mas isso não faria sentindo nenhum para ele. Encarei-o, emudecida. Alguma coisa na expressão dele fez meu coração acelerar. A preocupação sincera tocou num lugar bem fundo dentro de mim. Fiquei perplexa com a noção súbita de que e desejava ficar ali sempre, com Breno e Luan, naquela casa soterrada pelo musgo. Porém, quando descobrissem meu nome, eu teria de voltar para casa.
— Estou bem, obrigada! — menti, pondo-me de pé.
— Você não vai tomar sorvete? — a incredulidade no olhar de Breno quase me fez rir.
— Estou com um pouco de dor de garganta, querido. Vou deixar para próxima vez.
Fiquei parada, encarando Luan num silêncio constrangedor. Pensei em algo dizer ou fazer, mas tudo parecia ser intruso, até minha simples presença.
E então, minha chance se foi. Ele passou por mim e subiu os degraus. Quinze minutos depois, retornou, usando uma calça jeans, justa, uma blusa xadrez, as cores intercalavam em amarelo e preto. Ele usava um óculos, de lentes escuras e boné preto. Breno veio logo atrás, com o seu ursinho favorito.
Deixamos a casa e seguimos para o carro, um trio silencioso e tenso. Breno abriu a porta e se sentou no meio do banco. Deslizei para o lado dele e Luan fechou a porta com firmeza, certificando-se de que estava bem trancada.
O trajeto para cidade não levou mais que dez minutos, mas pareceu uma eternidade. Concentrei-me na paisagem exuberante à minha volta, onde tudo parecia florescer em perfeita harmonia com a natureza.
— Vocês vivem num lugar privilegiado! — comentei, rompendo o pesado silêncio.
Como nenhum dos dois estimulou a conversa, continuei a apreciar a paisagem verdejante ao meu redor. A cidade era pequena, com ruas largas e arborizadas. O comércio local estava movimentando, na certa, por causa da proximidade da Páscoa. O tráfego pesado se concentrava no centro, e reparei que não havia semáforos. Uma pequena multidão se aglomerava diante de uma loja de guloseimas. Pessoas curiosas se aproximavam, invadido a rua e atrapalhando o trânsito.
— Droga! — Luan resmungou, tocando a buzina — Vamos nos atrasar!
Eu estava ponta a perguntar qual era a razão de tanto estardalhaço quando vi o painel do televisor na vitrine. O acidente! Claro. Virei o rosto instintivamente, mas ainda pude ver de relance as cenas que mostravam os destroços do avião.
Luan dobrou a esquina e seguiu pelas ruas paralelas, mais tranquilas. Entrou com o carro no estacionamento de um prédio antigo e desligou o motor.
— Por que eu tenho de vir ao psicólogo de novo? — Breno perguntou, contrariado.
— Porque você ficou muito abalado com a perda da sua mãe, rapaz! — Luan abrandou o tom de voz — É natural ficarmos tristes com a morte de alguém que amamos.
— Mas não é natural falar com espíritos, não é? — Luan suspirou alto.
— Estou tentando ajudar, rapaz.
— Ajudaria se você acreditasse em mim! — Breno resmungou, passando sobre mim para sair do carro.
Caminhei pelo estacionamento ao lado de Luan. Estávamos tão perto que os braços se roçavam, mas nenhum de nós se afastou. Por um segundo, quando entrávamos na recepção, imaginei que éramos uma família e que entraria no consultório para responder a perguntas sobre a saúde psicológica do meu filho. Depois, sairíamos para tomar um sorvete.
Em vez disso, aguardei Breno e Luan na sala de espera. Uma enfermeira alta, com óculos de grau, apoiados na ponta do nariz, se aproximou de mim e juntou as mãos diante do corpo.
— Como estamos nos sentindo hoje? — indagou com um sorriso profissional.
— Oh, eu estou bem. — respondi, sobressaltada.
Ela teria me identificado pelas imagens que apareceram na televisão? Saberia que eu era uma das sobreviventes daquele avião que jazia carbonizado na floresta? E se ela me reconhecesse e insistisse para me levar às autoridades? Nesse caso, e teria de me resignar ao meu destino e voltar para minha triste vida, pensei. Porém, ainda não estava preparada para voltar. Ainda não dera sequer o primeiro passo: Telefonar para minha família e Queila e dizer que estava viva.
Temerosa, perscrutei o rosto de traços suaves. Respirei mais tranquila ao perceber que não havia nenhuma sombra de reconhecimento no olhar dela.
— Estou esperando meu… — calei-me antes de dizer a palavra ‘’filho’’ — … Breno terminar a consulta. Obrigado por perguntar.
Fiquei aliviada quando ela assentiu e se afastou com passos silenciosos.
Percebi a incerteza na voz de Luan, o medo de que o filho não concordasse. Tomei-me consciente da fragilidade em que todos nós nos encontramos ali, e de como podíamos ferir um ao outro com facilidade, especialmente quando o amor estava envolvido.
Lucas. O nome do meu ex-marido dançou na minha cabeça. Fechei os meus olhos durante um segundo, e me lembrei da minha páscoa de dois anos atrás. Eu estava observando minha varando, enquanto Lucas, ajeitava os últimos detalhes da ornamentação.
Quando os abri, Breno estava com o pai, decorando a imensa varando. A visão me fez sorrir. Preferir não me intrometer nesse momento, apenas fiquei os observando. Quando eles terminaram de decorar, eles recuaram um passo, para fora da varanda e admiram o trabalho bem feito.
— Fico muito bom! — disse Luan, com um ligeiro tremor na voz.
— Diga isso a Juliana, papai. Foi ideia dela.
— Tenho certeza de que ela sabe que eu gostei.
— Não é a mesma coisa. Diga a ela… — Breno insistiu.
Quando Luan me fitou, não havia nenhum equívoco no brilho dos olhos castanhos. Eu soube que ele era um homem que amava o filho acima de tudo. Naquele momento, perdoei a hostilidade com que ele me tratava.
— Obrigado, Juliana! — ele disse laconicamente.
— Fale com ela, papai. Juliana é simpática e educada.
— Não falo com mulheres educadas e simpáticas há muito tempo, rapaz. Acho que perdi o jeito.
— Está tudo bem! — tranquilizei-o.
Por mais estranho que parecesse, eu me senti conectada àquele homem. Nós dois éramos sobreviventes de um coração dilacerado, vítimas de uma guerra comum. Além disso, Luan tinha razão; as palavras não vinham tão facilmente quanto gostaríamos.
Lembrei-me mais uma vez de Lucas e Iasmin, do que costumávamos a ser, e me vi novamente conectada à realidade.
— Você está bem, Ju? — a voz de Breno me sobressaltou. Sorri para ele, esperando que soasse sincera.
— Estou bem.
— É claro que ele está bem! — Luan acrescentou — É páscoa. E agora, por mais que eu deseje ficar aqui conversando com você e a Juliana, está na hora de levá-lo para consulta com o psicólogo.
— Droga! — Breno resmungou — Eu não quero ir.
— Eu sei, rapaz!
— A Juliana pode ir junto? Por favor? — ele suplicou, passeando o olhar do pai para mim — Eu tenho medo de ir ao psicólogo.
— Mas seu pai estará com você, Breno. — murmurei, exasperada.
— Quero que você vá comigo.
— Eu não acho que seja uma boa ideia. — insisti, estudando o perfil de Luan. Não pude deixar de perceber que ele ficou magoado com o pedido do filho.
— Por favor, Ju! — Breno pediu com lágrimas nos olhos.
Procurei o apoio de Luan, mas ele se matinha impassível. Decidi que era preferível enfrentar a fúria do pai a desapontar o filho.
— Então está certo, mas eu ficarei na sala de espera! — concordei por fim.
Breno abriu um largo sorriso e disparou escada acima.
— Vou buscar o Lion! — gritou por sobre o ombro.